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Poesias de Rebeca Penna
REFLEXOS
DA ALMA
Não sei porque escrevo
Talvez seja porque sei
Que quanto mais existo menos sei
Sei, sabendo que aqui estou,
Mas saber o porquê não é o saber
Escrevo porque sinto, porque vivo
Mais, não sei o que dizer.
Leve brisa que sopra
E refresca as negras e silenciosas crateras
Cavadas em galerias sem fim
Nas profundezas da alma esgarçada pela vida mundana
Que nos forçam a levar, apesar, a carregar
Oh lamúria cruel!
Que afaga meu pranto
Na ânsia da liberdade do eu
Imerso na magia das trombetas
Única escapatória para o viver
Esquecer...
Soltar a alma que anseia voar pelos verdes prados
Procurar no solo a magia que vem das estrelas
Abandonar as gangrenas do passado
Soltar as pesadas amarras
Para se escapar, voar, viver.
Rebeca
março/2000
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Querer
se livrar das amarras das mordaças da vida
Soltar-se das penúrias impostas por uma pseudo – autoridade
Fluir a alma, acabar com a penúria
Descobrir a explosão do poder de viver
Transpor barreiras suplicadamente impostas
A fim de se entregar ao paraíso orgástico
Abrir os portões fechados da mente, como uma ponte
Avistar o outro lado, se apaixonar, ficar
Prá que voltar?
Se do outro lado existe a verdade sublime
A doce viagem que nos transborda a alma
Nos faz encarar os fatos como a vida escrita numa seda
Que o outro lado se mostra e a gente não vê.
Oh cabeça mediocremente selada!
Abre suas janelas, transcenda às suas portas
Entorpeça seus pulmões com a ânsia de viver
Para não ter o que não lembrar ao completar sua viagem cosmo –
estelar
Rebeca
Março/2000
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A
fugacidade do ser na vida
Impiedosamente se iguala a uma gaivota a voar
Voa livre pelos ares mas nunca se esquece de seu pouso para voltar
Vida onírica, vida louca; o hospício do viver é o porto
seguro dos transgressores,
Que se perdem pelas florestas da insanidade, e se banham nos rios da fatal realidade.
Vivo a viver, pois se morre a cada dia por não viver, na insistência
de existir
Estar e viver travam um combate mortal
Definitivo campo de batalhas no mundo dos sonhos errantes
Cavaleiros e duquesas se embrenham num duelo de gigantes
A essência do humano exala de seus sonhos: liberdade florescente.
Rasga em cada um a armadura apertada que estrangula
Breve vôo que acompanha a gaivota
Volta, mas vive livre no paraíso insano
Das idéias e das montanhas.
Rebeca
Março/2000
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Há
algo no fundo da mata, que chama
Que grita exacerbadamente buscando o fundo da minha alma
Sufoca os restos de paz que há no interior, guardados
Para no fim corsários não roubarem
Veio como um furor, veio em mim
Lampejos e raios das ninfas e fadas escondidas no manto da lua
Procura a sombra pelas negras clareiras embrenhadas
Me arregaça e invade em mim
Loucura sã perdida em meio à vã loucura entorpecida no
mar de asfalto
Esconder-se para viver, solução clareada ao entardecer
Vaga claridade que avante segue nas frestas da floresta
Que afasta os piratas e despista as caravelas.
Rebeca
Março/2000
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SUSSURRO
O murmúrio das águas do rio,
Doce torrente...
Que molha as amarguras infinitas
Da minha’lma represada
Represa que amarra, que tolhe, que sofre
Que deixa marcas no âmago mais profundo
Do único ser que tentou um dia
Uivar à enfrentar a lua negra
— Liberta-te do embargo que te forçaram!
Ouço na floresta um clamor a ecoar
E de uma estranha magia meu coração se embriagou
E descobriu a proeminência de suas asas,
E voou...
Não mais o pesado muro irá nos tapar a visão
Uma vez que o Sol foi visto pela pura dimensão da alma
Descobriu-se o feitiço de viver...
E nunca mais deixará ser levado pela amarga disciplina do não
querer.
Rebeca
Março/2000
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A
cachoeira levou o brilho do dia e lá transformou
Cândidos raios de Sol na imagem prateada da noite lua
A rainha do escurecer, coroou-se com a chuva de orvalho
Ornamentada para recebê-la e lisongeá-la como merece
A sombra do baobá refresca a quentura que a viagem da minha mente faz,
quando entra em sua alma.
Doce brisa que abranda o verão
Aqueça-me com pura malícia, com os doces versos entoados pela
perfeição da sua boca.
Que sinistro poder exerces sobre mim...,
Quando permito libertar-me das amarras da pressão que me faz viver
Meu coração só encontra você
Deixo tudo! Esqueço o mundo, desde a primeira vez que sua energia acendeu
a singela centelha que começou a fogueira que não mais abrandará.
Viva, mas viva comigo, seja meu guia que serei sua estrela.
Vamos rodar na magia dos sentidos, nas transas loucas,
Que só quem deseja se permite viajar.
Rebeca
Março/2000
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Noite
de lua, o rio a correr, e a cabeça não sai de você
Prá que pisar no asfalto se existe no meio do mato
A essência que vem de você
O beija-flor ecoou, nas águas do lago, sua lamúria de amor
Doces perdizes, agonia da alma
Liberta a minha sede para eu poder saciá-la
Nas entranhas doces de você.
Sede de mato, cheiro de pasto
A planície contrasta a relva salpicada pelo orvalho
Com os brilhos dos olhos de você
A doce louca fumaça que sai livre pelo ar
Exala e exacerba a estranha maravilha
Que a comunhão de nossos corpos contemplou
Maravilha viver!
Deixar o fluido venal de ser
Correr por entre os poros desta criatura
Embasbacada pelo esplendor de você
Rebeca
Março/2000
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Numa
noite a realização de uma profecia se fez presente
O destino me colocou novamente ao seu lado
E todo o universo soltou um suspiro de prazer, de contemplação
E...que coisa boa!
A certeza do querer...
Dois corpos falando a mesma língua, uma fusão de almas
Duplo sentido sem a necessidade de uma única palavra
A sua pele, seus lábios, você...
A certeza de uma conexão cósmica, nada é por acaso.
Uma criatura de gentil semblante, um anjo terreno;
O mundo se abriu através dos lampejos do seu olhar
Da candura do seu sorriso
Espero através dos portões das estrelas
A brevidade do encanto da sua presença – a fazendo eterna –
e me jogar na maciez do seu ser,
E morrer prá me encontrar em você.
Rebeca
Março/2000
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Gemidos
leves que a noite traz
Frio, solidão;
Leveza breve que orvalha a dor
Calor, contemplação;
Brasa morna que incendeia, chama tensa que se esvai
Galho seco na folhagem, estalidos de inocência
Que aperta o coração, na imensidão do mar de amor
Amo tua singela breve carência cedida
Chamando pelo ninho seguro
Galho seco que refaz o recanto, desfaz-se no relento
Aperta a dor, aquece o calor
Remonta à mata e retorna à casa.
Rebeca
Março/2000
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Derramo-me
em ti, e não vês, já ofuscado
Impedido p ela barreira já erguida frente a você
Quisera eu sentir de alguém tão grande sentimento
Que mesmo sem querer, exala de mim por você.
Sentimento desimpedido que flui sem querer
Me pego atordoada, remontando os retalhos
Na busca do utópico perfeito
Anseio junto às estrelas dos sonhos transcendentes
Chegar o momento da perfeita comunhão de almas
Que é o extremo fim dos amantes
Deixar-se explodir o que resta de dentro
No fundo, guardado
Enlouquecer
Prá me derramar em você.
Rebeca
Março/2000
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Surge
a noite e irrompe o dia
Manto negro que esgarça a claridade
Sombras, escuridão...
Lançar-se para desaparecer
Para nascer...
Larga dor que afronta o desespero criador
Remota consciência afagando as negras nuvens
Que lançam raios e trovões na tempestade da vida
No jogo lúdico que entramos, sem pedir licença
Torres de concreto, fábricas de ilusão invadem a virgindade natural
Ferem a vida no que é potencial
Pirilampos levam mensagens de socorro, e as jogam
Para os últimos lutadores terem o mastro para se agarrar
Se salvar, nas barcaças que os levarão além do mar finito.
Rebeca
Março/2000
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V.I.D.A
( Viver Intensamente De Amar)
Viver a V.I.D.A
Intensamente morrer de te amar
Devorá-lo das maneiras enlouquecidas
Transpor as lacunas, preenchê-las de gozo louco
No espelho refletido, o outro lado é jogado
Amar Deliciosamente
Intensamente Você
Significado ou interpretação?
Cada um é seu juiz, no tribunal da insanidade
Jurados cegos, réu sem culpa
Andarilhos nas estradas da percepção infundada
Procura o habeas-corpus, salvação única para os mutantes
Rio um riso dolorido, o rio corre aos meus pés
Me lanço sem pensar, me afogo sem perceber
Que o louco não sou eu, somos nós, na aldeia da doideira
Viva a loucura, no sanatório das picardias gerais!!
Rebeca
Março/2000
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EXTASIADA
EM VOCÊ
Estou doente desse meu querer
Te quero tanto que o desejo se transpõe à vontade
A vontade é de você, te invadir, me sucumbir...
Invadindo esse coração que se apossou do meu, levou a razão.
Me esparramo nesse mar azul, dessa alma insandecida
É você ser divino, é você que me arrebata, sua luz
Pura energia que placidamente toma conta de mim, me carrega
Além da dimensão dos sonhos, dos portões do paraíso
escondido
Tu não sabes, mas és a singela chama que me arde
Queimo tanto que chego a gritar de dor, de saber gostar;
Move a roda da vida, que a carrega prá bem longe
Me encontro nos seus olhos e no êxtase da sua boca.
E perdida estou só, e não quero me encontrar
Te quero muito, quero me dar...
Me perder prá te achar.
Rebeca
Março/2000
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Não
és meu, mas estás em mim
Dentro de mim você é meu, pertenço a dentro de ti
Dentro de mim...
Sonho sim, mas vivo mais
Na certeza de você, eternizo os segundos
Apago o fogo aceso; acaricio as verdades escondidas
Guardo você, escondo o querer
A vida gira, amor me pira.
Fujo do sim, me escondo no não
E continua a fumaça no baile dos sonhos
O pranto que desgarra
Se esquivando da escuridão.
Rebeca
Março/2000
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ESCAPATÓRIA
Rufam os tambores da anarquia
Despe o frio capote imposto pela repressão
Apressa os corações mais desesperadas, luta cega,
Que desliga a acomodação e incita a revolução.
Conformidade depravada pela coragem
Desfralda a bandeira da liberdade explosiva
Olhos negros observam tudo e tentam, em vão,
Conter o maremoto de excitamento jovial.
Desgarrar-se das regras, pseudo impostas por quem?
A resposta é obscura, se vê através de lentes furtas
Que esvoaçam nas mentes sonhadoras
Buscando o rio que transbordará nas mentes contaminadas
Fel que suja o mel de pavor
Esconde as marcas indecifráveis do viver
Foge, urra, se esconde
Serrando as grades intransponíveis da liberdade.
Rebeca
Março/2000
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PORQUE
VOCÊ...
Não te amo, mas é você
Te quero muito e é você
Não sei se quero, sinto você
Você me inspira, sei que você
Energia sua se espelha em meu eu
Reflete aqui dentro e fala através de versos
Não sei se entendes, mas quero dizer
Prá você...
É para você, é para te ver, para te mostrar
Que ver é mais que olhar
Sentir seu toque ao te pensar
Roubar seu brilho ao te beijar
Sugar teu ser por te querer
Porque você...
Rebeca
Abril/2000
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REFLEXOS
Deixem-me morrer de viver esse amor!
Olhem ao redor onde explode a felicidade
Para cima é que está a verdade,
Escondida para se olhar por baixo
E embaixo do mistério, se esconde a lucidez
Que regozija-se do fato de ser fato
Mas não o é por inteiro uma unanimidade
O fato é falho pois sua força está no ato.
E que ato é este que rasga a couraça ferroada
Amarrada pelos nós da repressão?
É o fato de sabermos livres, de sabermos sábios
De viver o amor na vida, pelo amor, de dançar na ilusão
E nestas danças, nos salões dos devaneios inventados
Eu te acho refletido...num espelho...dentro de mim,
Voltar?
Só se for prá me perder, enlouquecer, me renascer,
Dentro e ti.
Rebeca
Abril/2000
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O
enigma de sentir e ser
O mistério de você
Ser o que sou, completo em ser
Um andrógino à procura da separação
Os olhos procuram sua visão
Meu olfato respira o que exala de você
Simples toque que o tato tenta exprimir
Ao pôr na boca um gosto qual o mel
Na música que embala a seresta dos anjos
Foi sua boca que entoou os versos
Energia sua que esculpiu as letras em prosa
Largou dentro de mim a energia vital para a teia
Elo vivo, me une à vida
Doce prisão que afugenta o mal
E me livra da escuridão
E da dor sem alma.
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MAGIA
Entrelaçados em noites de mágicos acontecimentos
Esquecidos das dores que viriam
Mergulhados na trégua do isolamento breve
Não tivemos a lua que agora povoa
O espelho aquoso
Que logo mais gravaremos nas retinas
Já marcadas por lágrimas necessárias
Verbos não resumirão os fatos
De natureza tão intensa
Idéias, não resolverão nossos medos e mágoas
Mas abraços nos darão força necessária ao passo.
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PALAVRAS
Não posso dizer que te amo
Não,
Talvez só dizer que te quero
Não espere de mim tais palavras
Não posso, não vou, não quero.
No entanto posso dizer como te amo
Ou, simplesmente, direi como te quero
Mas não espere de mim outras palavras
Não posso, não vou, não quero
Este corpo, que também sou eu,
Pode dizer-te tudo que espero.
Mas não pronunciarei tais palavras
Não posso, não vou, não quero.
Observe este corpo faminto
Leia-o por nós se puderes
Ele dir-te-á tudo o que quiseres
Mas eu...Não vou, não posso, não quero
Se puderes entendê-lo
Aceita-o quanto puderes
Sinta-o falar de tudo que prá mim és
Porque eu não posso, não vou, não quero
O movimento, o bailado, que no meu corpo, as palavras precede
Quando te vejo, te olho, te quero
Fala por si e por mim
Tudo que nem eu mesma quero
Porque não direi tais palavras
Não posso, não vou, não quero
Nunca ouvireis de mim tais palavras
Já que são tão-somente palavras
Porém este meu corpo tanto e tudo fala
E elas jamais falarão
Tudo o que pode ser lido
Não me forceis a dizer tais palavras
Não posso, não vou, não quero...
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INFINITA
A MENTE
Voltar ao oposto
Do que imaginávamos ser o ser
Sendo, sei que vou por lá de longe
Trilhas cerradas afloram na visão
Desbravo trilhas
Caminhos radiantes sob o manto da lua
Que desnuda a alma seca e assombrada
Borra de azul as trevas que fogem da luz.
Rebeca
Setembro/2000
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