Frases & Poesias
frases, poesias, frase, poesia, biografias de autores, carlos drummond de andrade, fernando pessoa, mário de andrade, cecília meirelles, eventos e concursos literários, fórum literário, literatura brasileira, literatura nacional, literatura, dicas literárias, eventos literários, Machado de Assis, Castro Alves, Vinicius de Moraes, Casimiro de Abreu, Olavo Bilac, Manuel Bandeira, Mário Quintana, Poeta, Poetas, Poetisas
 

Poesias de Cecília Meireles

Discurso

E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixe seu ritmo onde passa.

Venho de longo e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes andaram.

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute ?

Ah! se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que algum ouvido me escute ?

Ah! se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim ?


--------------------------------------------------------------------------------

Explicação

O pensamento é triste; o amor insuficiente;
e eu quero sempre mais do quem nos milagres.
Deixo que a terra me sustente:
guardo o resto para mais tarde.

Deus não fala comigo- e eu sei que me conhece.
A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.
A estrela sobe, a estrela desce...
- espero a minha própria vinda.

( navego pela memória
sem margens.

alguém conta a minha história
e alguém mata os personagens. )


--------------------------------------------------------------------------------

Apresentação

Aqui está a minha vida- esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.

Aqui em minha voz- esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.

Aqui está a minha dor- este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.

Aqui está a minha herança- este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.


--------------------------------------------------------------------------------

Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranquilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)


--------------------------------------------------------------------------------

Metamorfose

Súbito pássaro
dentro dos muros
caido,

pálido barco
na onda serena
chegado.

Noite sem braços!
Cálido sangue
corrido.

E imensamente
o navegante
mudado.

Seus olhos densos
apenas sabem
ter sido.

Seu labio leva
um outro nome
mandado.

súbito pássaro
por altas nuvens
bebido.

Pálido barco
nas flores quietas
quebrado.

Nunca, jamais
e para sempre
perdido

o eco do corpo
no próprio vento
pregado.


--------------------------------------------------------------------------------

Noturno

Brumoso navio
o que me carrega
por um mar abstrato.
Que insigne alvedrio
prende à idéia cega
teu vago retrato?

A distante viagem
adormece a espuma
breve da palavra:
- máquina de aragem
que percorre a bruma
e o deserto lavra.

Cêras de mistério
selam cada poro
de vida entregada.
Em teu mar, no império
de exílio onde moro,
tudo é igual a nada.

Capitão que conte
quem és, porque existes,
deve ter havido.
Eu? - bebo o horizonte...
Estrelas mais tristes.
Coração perdido.

Sonolentes velas
hoje dobraremos:
- e a nossa cabeça.
Talvez dentro delas
ou nos duros remos
teu NOME apareça.


--------------------------------------------------------------------------------

Guerra

"Tudo é sangue
que os rios desistem de seu ritmo,
e o oceano delira
e rejeita as espumas vermelhas.
Tanto sangue
que até a lua se levanta horríve,
e erra nos lugares serenos,
sonâmbula de aúreolas rubras,
com o fogo do inferno em suas madeixas.
Tanta é a morte
que nem os rostos se conhecem,lado a lado,
e os pedacos de corpos estão por alí como tábuas sem uso.
Oh! os dedos com aliancas perdidos na lama...
Os olhos que já não pestanejam como a poeira...
As bocas de recados perdidos...
O coracão dado aos vermes,dentro dos densos uniformes...
Tanta é a morte
que só as almas formariam colunas,
as almas desprendidas...-e alcancariam as estrelas

E as máquinas de entranhas abertas,
e os cadáveres ainda armados
e a terra com suas flores ardendo,
e os rios espavoridos como tigres,com suas máculas,
e este mar desvairado de inc^ndios e náufragos,
e a lua alucinada de seu testemunho,
e nós e vós,imunes,
chorando,apenas sobre fotográfias,
-tudo é tão natural armar e desarmar de andaimes
entre tempos vagorosos,
sonhando arquieteturas!!!"
(enviada por Rebeca Pompeo)


--------------------------------------------------------------------------------

Lua Adversa

Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdicao da minha vida!
Perdicao da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vao e que vem,
no secreto calendario
que um astrologo arbitrario
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminavel fuso!

Nao me encontro com ninguem
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguem ser meu
nao e' dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Topo da Página

Voltar para o Menu de Poesias


Copyright © 2004 - Frases & Poesias. Todos os direitos reservados. Excelência em Desenvolvimento Web