Poesias de Cecília Meireles
Discurso
E
aqui estou, cantando.
Um
poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixe seu ritmo onde passa.
Venho
de longo e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes andaram.
Também
procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.
Pois
aqui estou, cantando.
Se
eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute ?
Ah!
se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que algum ouvido me escute ?
Ah!
se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim ?
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Explicação
O
pensamento é triste; o amor insuficiente;
e eu quero sempre mais do quem nos milagres.
Deixo que a terra me sustente:
guardo o resto para mais tarde.
Deus
não fala comigo- e eu sei que me conhece.
A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.
A estrela sobe, a estrela desce...
- espero a minha própria vinda.
(
navego pela memória
sem margens.
alguém
conta a minha história
e alguém mata os personagens. )
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Apresentação
Aqui
está a minha vida- esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.
Aqui
em minha voz- esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.
Aqui
está a minha dor- este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui
está a minha herança- este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.
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Despedida
Por
mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranquilo:
quero solidão.
Meu
caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que
procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A
memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo
aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)
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Metamorfose
Súbito
pássaro
dentro dos muros
caido,
pálido
barco
na onda serena
chegado.
Noite
sem braços!
Cálido sangue
corrido.
E
imensamente
o navegante
mudado.
Seus
olhos densos
apenas sabem
ter sido.
Seu
labio leva
um outro nome
mandado.
súbito
pássaro
por altas nuvens
bebido.
Pálido
barco
nas flores quietas
quebrado.
Nunca,
jamais
e para sempre
perdido
o
eco do corpo
no próprio vento
pregado.
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Noturno
Brumoso
navio
o que me carrega
por um mar abstrato.
Que insigne alvedrio
prende à idéia cega
teu vago retrato?
A
distante viagem
adormece a espuma
breve da palavra:
- máquina de aragem
que percorre a bruma
e o deserto lavra.
Cêras
de mistério
selam cada poro
de vida entregada.
Em teu mar, no império
de exílio onde moro,
tudo é igual a nada.
Capitão
que conte
quem és, porque existes,
deve ter havido.
Eu? - bebo o horizonte...
Estrelas mais tristes.
Coração perdido.
Sonolentes
velas
hoje dobraremos:
- e a nossa cabeça.
Talvez dentro delas
ou nos duros remos
teu NOME apareça.
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Guerra
"Tudo
é sangue
que os rios desistem de seu ritmo,
e o oceano delira
e rejeita as espumas vermelhas.
Tanto sangue
que até a lua se levanta horríve,
e erra nos lugares serenos,
sonâmbula de aúreolas rubras,
com o fogo do inferno em suas madeixas.
Tanta é a morte
que nem os rostos se conhecem,lado a lado,
e os pedacos de corpos estão por alí como tábuas sem uso.
Oh! os dedos com aliancas perdidos na lama...
Os olhos que já não pestanejam como a poeira...
As bocas de recados perdidos...
O coracão dado aos vermes,dentro dos densos uniformes...
Tanta é a morte
que só as almas formariam colunas,
as almas desprendidas...-e alcancariam as estrelas
E
as máquinas de entranhas abertas,
e os cadáveres ainda armados
e a terra com suas flores ardendo,
e os rios espavoridos como tigres,com suas máculas,
e este mar desvairado de inc^ndios e náufragos,
e a lua alucinada de seu testemunho,
e nós e vós,imunes,
chorando,apenas sobre fotográfias,
-tudo é tão natural armar e desarmar de andaimes
entre tempos vagorosos,
sonhando arquieteturas!!!"
(enviada por Rebeca Pompeo)
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Lua
Adversa
Tenho
fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdicao da minha vida!
Perdicao da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases
que vao e que vem,
no secreto calendario
que um astrologo arbitrario
inventou para meu uso.
E
roda a melancolia
seu interminavel fuso!
Nao
me encontro com ninguem
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguem ser meu
nao e' dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
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